Entenda, nunca fui do tipo de homem que ama os animais, mas tampouco jamais os odiei. Então, me foi peculiar o ódio que senti àquele pardal estranho. Estava eu sentado no banco da praça no final da tarde como sempre faço desde que me aposentei. Sou viúvo e meus dois filhos, Wilma e Fred, já não me fazem companhia há muitos anos. Wilma casou-se e foi com o marido para outra cidade e Fred, quase um vagabundo, vive a viajar pelo mundo mantendo-se de bicos por onde passa. A solidão é de tal modo que a verde praça há tempos é minha grande companheira e não há um só dia em que ela não se encha de pardais.
Mas, aquele pardal era diferente dos outros. Em cor e tamanho, não o era tanto. Talvez fosse levemente maior que os 15 centímetros habituais de um pardal e, talvez, tivesse a coloração mais escura também,ou quase preta, onde em um pardal são amarronzadas. Os olhos, sim, eram por demais estranhos. Eram maiores e de um vermelho escuro, que se assemelhava a um líquido viscoso. Aquele pássaro, ah, entenda, ele tinha algo de muito forte e diferente dos demais. Ele tinha algo de
maligno. No mesmo instante que desceu do fio elétrico de onde estava para comer as migalhas de pão com os demais, senti um arrepio frio percorrer todo o corpo. Eu odiei aquele pássaro no mesmo instante que o vi. Nunca senti algo assim, tão instantâneo, nem por bichos nem por humanos.
Ali, com os demais, ele não conseguia mesclar-se ao grupo, era distintamente diferente. Não sei se outras pessoas na praça já estavam o observando. Ou mesmo se ali sentiram tamanha ojeriza. Percebi que enquanto os outros pardais bicavam os pedaços de pão, eram os próprios pássaros que ele bicava. Lá estava ele, em meio a dezenas de outros, quando pequenas manchas de sangue começaram a surgir nas penas das aves e na grama, em meio a estridentes grunhidos. Até onde vai meu conhecimento sobre pardais, eles se alimentam de migalhas, insetos, minhocas. Mas, de outros pardais? Perdoe minha ignorância sobre a biologia das aves porém, em todos esses anos em que venho à praça, nunca vi um só pardal alimentar-se de outro.
A cena foi se desenvolvendo até boa parte dos pardais fugir em desespero para as árvores mais próximas. Então, o estranho pardal de olhos rubros ficou só em meio a praça devorando a bicadas uma das aves que não resistiu aos seus ataques. O nojo tomou conta de mim e voltei ao meu pequeno quarto e sala na pensão, a duas ruas dali. Não consegui tirar aqueles terríveis olhos da mente e sonhei com o maldito pássaro. No sonho, ele vinha à minha janela e eu o via ali parado, me observando. Logo ele conseguia quebrar o vidro a bicadas e entrar no quarto. Eu permanecia imóvel. Já em cima da minha cama ele parecia muito maior, como se tivesse quase um metro de largura e era completamente negro como uma graúna. Acordei e não consegui mais pregar os olhos.
Na manhã seguinte, o pássaro dominava todos os meus pensamentos e resolvi caminhar até a biblioteca para pesquisar sobre pardais. Descobri poucas coisas e todas irrelevantes, como o fato de eles aparecerem com mais freqüência em áreas densamente arborizadas e o fato de que é fácil distinguir o macho da fêmea: a fêmea apresenta em todo o corpo uma coloração uniforme, de cor castanha. Já o macho tem a cabeça e parte das asas castanho escuro, sendo o resto do corpo de um tom pardo. Aquele espécime, então, deveria ser macho, mas com o tom da cabeça e das asas bem mais escuro que o habitual. Sua cor e olhos poderiam ser fruto de alguma deformidade, talvez.
O dia passou sem que eu percebesse e logo chegou a hora habitual de me sentar em meu banco na praça e apreciar a natureza. Sentei-me e observei o costumeiro bando de pardais buscando suas migalhas de todo dia, jogadas por crianças e alguns velhos, como eu.
Não tardou para que o pássaro estranho voltasse a pousar entre os outros. Desta vez - e não estou velho o bastante para me julgarem senil ou louco - ele estava maior, bem maior e mais escuro, com um tom agora uniforme por todo o corpo. Só uma coisa me garantia se tratar do mesmo pássaro: os terríveis olhos vermelhos. Seu bico estava muito mais violento e causou um tumulto entre o bando que já voava em total desespero para salvar suas frágeis vidas. Será que só eu observava a cena? Sem perceber, já estava de pé, suado e extremamente assustado com tudo aquilo. Mas, não ousava me aproximar, o medo segurava minhas pernas. Dessa vez, ele conseguiu atingir fatalmente três pardais e os bicava regojizando-se e grunhindo de prazer numa cena horrenda, pintada com sangue, penas e pedaços dos animais. Vi que ninguém mais além de mim notava aquele terrível assassino em ação. Como era possível?
Depois de tentar saciar sua fome com suas três pequenas vítimas, seu olhar vermelho fixou-se em mim. Ele voou na minha direção abandonando os restos mortais dos pobres pardais tão rápido que não tive reação, eu continuava ali em pé, imóvel, suado e apavorado. A ave quase negra pousou na grama logo a minha frente, me encarando. Tive ali duas certezas: aquilo não se tratava de qualquer ave conhecida pela biologia, era incrível a mudança de cor e tamanho em apenas um dia. E hipnotizado por aqueles olhos vermelhos, percebi que de alguma forma, eu já o
conhecia. Aquele pássaro tinha algo que gelava meu sangue e ossos, ele era
diabólico, mas me era também
familiar. Após me encarar por um longo tempo que não consegui mensurar, tamanho nervoso, ele voltou a tornar-se violento e voou por cima de mim, arranhando gravemente meu rosto com as garras de uma das patas. A dor foi imensa.
Sangrando e terrivelmente assustado, voltei para casa. Meu ódio era proporcional ao medo que sentia daquele ser com asas que já não podia mais chamar de pardal, para não maldizer as inocentes criaturas. Aquilo, seja lá o que fosse, não era desse mundo. Sai dali decidido a matá-lo e, após fazer um curativo na testa e agüentando as pontadas de dor, fui atrás de comprar uma espingarda na loja de armas Arcor. Escolhi um modelo barato, comumente usado para matar aves.
Já em casa, no banheiro, observei que os ferimentos na testa não paravam de sangrar e já haviam manchado todo o curativo. O sangue escuro e grosso escorria pela roupa e pingava no chão. Ao tentar fazer um novo curativo, vi que tais ferimentos tinham o formato de três linhas paralelas, bem retas, e que o líquido era muito mais viscoso e escuro que meu próprio sangue. Fiz um pequeno furo no dedo para ter certeza da diferença. A gota de sangue do dedo era mais fina e tinha a cor vermelha bem distinta dos ferimentos da testa. Podia jurar que o sangue que saia daqueles ferimentos não era o
meu. Estava com uma forte dor de cabeça, e logo após trocar o curativo, cai na cama sem pensar muito.
Novamente, um sonho com o bicho abominável. Dessa vez, ele já estava em meu quarto, na minha cama, e era menor como na primeira vez que o vi. Dormia em meu lugar e eu sabia que eu mesmo estava ali no quarto, porém, não me via. Achei esse sonho bem mais esquisito que o anterior, mas pelo menos não me impediu de dormir bem.
Acordei com dores intensas no corpo e na cabeça, sentia fortes pressões em todos os lugares. Com a mão senti que o sangue havia estancado na testa. Fui ao banheiro a fim de averiguar os ferimentos. Tive ali o maior susto da minha vida ao me olhar no espelho. Muito mais que susto, é impossível descrever a sensação de nojo e desespero que senti com o que vi. Lá estava minha imagem refletida no espelho, tão diferente do homem de 73 anos da noite anterior. Eu estava muito menor, perdi quase 1/3 da minha altura. Minha pele estava escura, com um tom muito próximo a um preto fosco e com uma textura estranha e fina. Havia diversos pequenos pontos pretos e duros saindo de mim, centenas deles, de cada um dos meus poros. Meus olhos estavam de outra cor, de uma única cor, estavam negros; já não havia branco algum nesses olhos. As cicatrizes na testa eram destacadas da pele numa textura grossa e em alto-relevo. Lavei o rosto incontáveis vezes para ter certeza de que não se tratava de um sonho. Meu Deus, aquilo era real, eu estava me tornando um monstro terrível.
Em meu desespero, pensei ser talvez um feitiço ou maldição que aquele ser com asas e olhos flamejantes trazia em si. Aquilo era o próprio diabo em forma de animal ou, com certeza, alguma criação sua. Talvez, se eu o matasse conseguiria voltar ao normal. Mas, não podia sair de casa assim, com essa deplorável aparência. Então, esperei durante todo o dia pela hora habitual da criatura aparecer na praça. Vesti o maior sobretudo que possuía, que agora arrastava-se no chão. Por baixo, um moletom com capuz, o qual coloquei sobre a cabeça junto com um boné. Dentro do sobretudo, a espingarda e a munição.
A quantidade de roupa para meu, agora, tão franzino corpo atrapalhava o andar, de modo que demorei cerca de meia hora a mais para chegar à praça, ela devia estar quase vazia. Atravessei o caminho de árvores até o meu banco habitual e me deparei com a cena mais nojenta e impressionante que já vi. Tudo parecia acontecer em câmera lenta, sentia que ia desmaiar. O tal pássaro, agora negro como uma graúna e grande como uma águia, estava sobre uma enorme pilha de aves e bichos mortos; aquele monte de cadáveres de animais devia ter uns dois metros de altura. Ele os devorava cheio de satisfação num quadro tão horrendo de sangue, terríveis sons, penas e pequenos órgãos dilacerados que vomitei ali mesmo. Tive a impressão que ele ria. Seria de mim ou de prazer?
Foi então que notei algo que fez parar meu coração por alguns instantes. A dor que senti ao ver aquilo é inexplicável, a dor de ver o seu osbcuro destino. Na cabeça da ave, logo acima de seu olho esquerdo, havia três grossas cicatrizes paralelas, marcadas e sem penas que as cobrissem. No meu mais alto grau de loucura, desespero e medo, puxei a espingarda e atirei no animal. Atingi-o no peito e vi jorrar o sangue que tanto parecia com a cor de seus olhos. O ser abriu suas imensas asas negras e voou para onde eu já não podia vê-lo. Me senti perdido entre as roupas que me sufocavam, estava encolhendo a olhos nus. Ao observar meus pequenos e tão finos braços vi que alguns pontos duros haviam pulado para fora. Deus me perdoe, mas aquilo eram
penas saindo dos meus poros. Percebi que estava fadado a transformar-me naquele ser horrendo.
Tentei voltar ao meu apartamento, me arrastando com todo aquele volume de tecido tão pesado, decidido a me matar nesta noite, pois jamais aceitaria tornar-me essa nojenta criatura. O percurso foi difícil e já quase não alcançava a porta para abri-la. Ninguém me notava? Todo meu corpo doía com o brotar das penas nos pontos pretos em cada poro, fiquei nu e vi o quanto a saída delas me machucava e sangrava. Já não tinha coragem de me olhar no espelho. Aquilo drenava toda a energia que tinha, deitei-me na cama derrotado, assombrado, desesperado, pensando que o demônio existia, sim, e que ele havia me tocado. Fechei os olhos até que a dor me levou para um lugar tão distante, onde nem a consciência poderia me alcançar.
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- Por favor, a senhora Wilma?
- Pois não, sou eu.
- Senhora Wilma, meu nome é William Dantes, sou chefe de polícia de Pademar.
- A cidade de papai. Deus do céu, o que houve com ele?
- Na verdade não sabemos, por isso estou ligando para você. Ele desapareceu. A cidade é pequena e todos se conhecem, então, espero que entenda a nossa preocupação.
- Senhor Dantes, não estou entendendo. Fred está com você?
- Fred? Ele não vem a Pademar desde que terminou o colégio.
- Meu Deus, senhor Dantes, meu irmão deveria estar ai com papai. Fred me ligou aos prantos de algum lugar em Curwen. Tinha visto algo terrível naquela cidade e precisava fugir de lá. Aquele lugar sempre teve fama de amaldiçoado, com tantos ciganos, e já ouvi relatos horríveis. Disse para ele sair dali imediatamente e ir ver papai, que ele o ajudaria. Isso foi há cerca de cinco semanas.
- Fred não veio por aqui, senhora Wilma. Acredito que ele mudou de idéia. Vou explicar melhor. Há dias que a dona da pensão onde seu pai morava não o via. Nem mesmo para fazer seus habituais passeios pela praça no fim de toda tarde. Ela bateu na porta e não obteve resposta alguma. Até que um cheiro terrível vindo do quarto do seu pai se alastrou pela pensão e a assustou. Por não ter coragem de abrir a porta sozinha, ela me chamou. Quando entramos no quarto havia roupas com manchas negras no chão, era sangue coagulado, acredito, mas, com um cheiro podre quase insuportável. Essas manchas também estavam no banheiro e sobre a cama. O mais estranho senhora Wilma, é que sobre as manchas na cama, estava um pequeno pássaro que se assemelhava a um pardal, só que um pouco maior. Nunca vi tal ave: onde a penugem deveria ser normalmente amarronzada em um pardal, ela era mais escura, quase preta. Ele estava com os olhos fechados e respirava com dificuldade. Toquei-o sobre a cabeça e ele abriu os olhos, que de tão vermelhos me fez gritar de susto, admito. Devo tê-lo assustado também, pois neste mesmo momento, ele voou rápido e com tanta força que quebrou o vidro da janela do quarto e desapareceu no ar. Nunca vi ave mais estranha e repugnante. E apesar de todos esses fatos estranhos, não sabemos nada sobre seu pai. Todas as coisas dele estão em seu lugar, inclusive sua carteira e documentos. Há também no quarto uma espingarda usada na região em tempos de caça para matar pássaros. Estava enrolada na roupa suja de sangue no chão. Na loja Arcor, dizem que ele a comprou há semanas.
- Senhor Dantes, tudo o que o senhor me diz não parece ter sentido. Meu pai era um homem calmo e caseiro, sua única diversão eram as idas a praça e nunca atiraria em qualquer animal que fosse. Não conheço também ninguém que o faria qualquer mal.
- Também não conheço, seu pai sempre foi muito reservado, mas nunca fez inimigos.
- E Fred já deveria estar com ele na cidade há semanas, a esta altura.
- É esse o motivo da nossa ligação, senhora Wilma. Também nada entendemos e não há rastros do seu pai em lugar algum. Tampouco alguém viu Fred na cidade e Pademar é tão pequena que se ele tivesse vindo por essas bandas, saberíamos no mesmo dia. Saberíamos também se alguém de fora viesse por aqui. Vejo que você também não tem nenhuma informação para nos ajudar.
- Não, infelizmente, não faço idéia do que tudo isso se trata.
- Lamento informá-la do estranho sumiço de seu pai. E pelo que vejo, de seu irmão também. Peço que caso se lembre de alguma informação, entre em contato imediatamente. Obrigada.
- Eu que agradeço senhor Dantes.
Wilma não conseguia juntar nenhuma peça do quebra-cabeça do desaparecimento de seu pai ou do porquê de Fred nunca ter chegado a Pademar. Aquilo a assustava muito, pois Fred estava desesperado ao telefone. Ele não falava coisa com coisa, apenas algo sobre grandes aves negras e três ferimentos na sua testa. Dizia que precisava fugir dali. Pensou que ele estava de alguma forma delirando e pediu que fosse ver o pai, ele o ajudaria. Onde estariam os dois agora? Agarrou seu rosário e rezou para que estivessem bem e a salvo. Amanhã mesmo iria a Pademar, avisou ao marido. Naquela mesma noite, ela sonhou com dois pássaros negros como uma graúna e grandes como uma águia. Eles a observavam com seus olhos vermelhos e escuros através da janela do quarto. Aqueles olhos eram tão penetrantes, assustadores. O mais incrível é que eram
familiares.